Renovação Espiritual

Introdução.
O trabalho batista no Brasil começou debaixo de oração. Os missionários, ajoelhados sobre o mapa do Brasil, num hotel na cidade mineira de Barbacena, buscaram do céu a direção divina, quando finalmente decidiram estabelecer em Salvador, no Estado da Bahia¹ , a Primeira Igreja Batista do Brasil com o fim de levar aos brasileiros o evangelho do Senhor Jesus.

Os anos que se seguiram a essa decisão foram de muitos frutos para a causa batista em nossa nação. Novos campos foram abertos no Rio de Janeiro, Maceió e Recife, organizou-se uma editora, foi lançado O Jornal Batista, criou-se um colégio e um seminário e o número de crentes crescia a cada dia; tudo isso indicando que aquele pequeno trabalho iniciado no solo baiano estava no caminho certo.

No correr dos anos, todavia, a obra batista foi se desviando desse rumo original e assim viu surgir emseu seio a disputa pelo poder travada entre missionários americanos e obreiros nacionais, a teologia liberal, dourada por uma linguagem evangélica, aos poucos assumir lugar de destaque em seus seminários e o formalismo religioso, com sua solenidade fúnebre, tomar conta de seus cultos.

É nessa ambiência que nasce a Renovação Espiritual no Brasil; um movimento que trazia, como gritou um de seus principais representantes, “uma mensagem bíblica no poder do Espírito Santo para sacudir as igrejas que existem, mas que dormem embaladas pelo comodismo e pela inatividade”.²

I – A semeadura.

Rosalee Mills Appleby (1895-1991) foi a personagem que Deus levantou para lançar as sementes da obra de renovação espiritual que sacudiu as igrejas no Brasil em meados do século passado. Essa missionária norte-americana chegou ao nosso país em 1924, juntamente com o seu esposo, David Appleby, para se dedicar à causa do Senhor entre os brasileiros. Com pouco mais de um ano em nossa terra, contudo, aprouve a Deus recolher o seu esposo às mansões celestiais, o que a fez pensar “se por acaso havia se enganado vindo para o Brasil”.³

O Deus que envia os trabalhadores para a sua seara, todavia, confortou o coração de sua serva e ela recobrou as forças que precisava para o engajamento no trabalho missionário.

A ambiência denominacional que Rosalee encontrou, como observamos, achava-se em decadência espiritual. Talvez por isso, tenha defendido a tese de que missões passa por quatro estágios: o pioneiro, com perseguição e pobreza; o da expansão, fruto da fidelidade e perseverança, o da luxúria, com o desfrute do que foi construído e conquistado e, por fim, o da decadência, caracterizado pela falência espiritual.4

Foi nesse contexto de decadência espiritual que Rosalee sentiu a necessidade de um despertamento espiritual para igreja brasileira e concentrou toda a sua atenção, pensamento e ações nessa direção. Assim, Rosalee passou a orar diariamente por um avivamento espiritual que trouxesse vida à pátria brasileira e a escrever e enviar folhetos com mensagens de avivamento para pastores em todo o país a fim de despertá-los para a urgente e necessária obra de renovação espiritual no seio da igreja.5

Essa semente lançada, finalmente, encontrou um solo fértil que começou a produzir os seus primeiros frutos.

II – Os primeiros frutos.
O trabalho semeador da missionária Rosalee peloBrasil a fora alcançoumuitos corações sedentos de um derramar do Espírito Santo que viesse trazer vitalidade a igreja brasileira. O pastor José Rego do Nascimento foi o primeiro grande fruto colhido desse processo de semeadura.
Isso ocorreu em 20 de setembro de 1955, enquanto orava em seu gabinete pastoral, conforme relato do próprio Rego:

No dia 20 de setembro de 1955, numa terça-feira, eu estava orando na parte da manhã, sozinho em meu gabinete, pedindo ao Senhor pelo culto da noite e também orando por uma bênção para o meu ministério. Eu li Ezequiel 47, que fala das águas que saem do santuário, águas que passam nos artelhos, mas também no meio do corpo e podem cobri-lo inteiramente. Falei, então: ‘Senhor, eu preciso ser coberto assim por Ti, possuído por Ti para ser usado na Tua obra. Se Tu tens um batismo assim, batiza-me’. Fiquei orando ao Senhor, pedindo a bênção, clamando que Ele me desse algo nesse sentido, que Ele falasse comigo. Então, observei, no pequeno livro que estava sobre a mesa, Como diversos servos de Deus foram cheios do Espírito Santo. Li que Billy Sunday, sempre que pregava, tinha os olhos postos em Isaías 61.1. No momento, eu não me lembrei do texto, mas abri a Bíblia e li: ‘O Senhor me ungiu para pregar’. Naquela hora, tive a consciência de que eu só seria um pregador se o Senhor me ungisse com o poder do Santo Espírito – como aconteceu com todos os servos sobre os quais as Escrituras testemunham. Naquele momento, orei ao Senhor e disse: ‘Se Tu me batizares com o Teu poder, eu pregarei e darei testemunho desta Palavra aonde Tu me mandares’. Então, imediatamente, eu senti que o Senhor veio sobre mim como aconteceu no Dia de Pentecostes.6

A partir dessa experiência, semelhantemente a João Batista, o pastor Rego começou,das terras secas da cidade de Vitória da Conquista, no sertão baiano, anunciar a mensagem de renovação para todo o Brasil. O seu primeiro grande canal de comunicação fora O Jornal Batista; veículo informativo da Convenção Batista Brasileira, para onde ele enviou muitos artigos sobre a necessidade de uma vida cheia do Espírito Santo.

Na cidade de Belo Horizonte, após assumir o pastorado da Igreja Batista da Lagoinha, o pastor Rego ampliou o alcance dessa mensagem através do Programa Radiofônico Renovação Espiritual e dos muitos convitesque passou a atender para pregar pelo país.

Assim, num contexto onde a doutrina do Espírito Santo era negligenciada ou, quando muito, enfatizada de maneira negativa, Rego levantou a voz destacando a sua importância para a vitalidade da igreja e denunciando a falência espiritual na qual a igreja se encontrava como uma consequência inequívoca do desprezo a essa doutrina.

III – Expansão e consolidação.
Outra grande figura de destaque a abraçar a causa da Renovação Espiritual foi o pastor Enéas Tognini. Importante liderança na Convenção Batista Brasileira, a semelhança de muitos batistas, Tognini não aceitava a realidade experimental do batismo com o Espirito Santo nem a contemporaneidade dos dons espirituais.

Sob a influência da missionária Rosalee Appleby e do pastor José Rego do Nascimento, Tognini, no entanto, teve suas convicções abaladas e, por fim, veio experimentar aquilo que acreditava não existir.

Essa experiência é relatada pelo próprio Tognini nos seguintes termos:

[...] era um sábado. Levantei-me às cinco da manhã e entrei para o meu escritório na casa pastoral. Orei cerca de uma hora e meia e o céu me parecia de bronze. Deus estava em silêncio, profundo silêncio! Fui ao café, e voltei para a batalha da oração. Mais duas horas de luta, como Jacó no vau de Jaboque. Nenhuma resposta do céu. Desacorçoado, levantei-me de joelhos e sentei-me na poltrona de onde escrevo esta nota. Apoiei a cabeça nas mãos e estava em desespero por Deus não me responder à oração. E quando nesta aflição, ouvi a voz de Deus, tão perfeita como a de qualquer mortal, que me dizia num tom profundamente imperativo: ENTREGA... Ao ouvi-la, não tive dúvida nenhuma de que realmente era a voz de Deus. E eu respondi: ENTREGA O QUE SENHOR? e Deus me disse: A BIBLIOTECA (tinha uma biblioteca de aproximadamente 4 mil volumes e era para mim um grande e terrível ídolo): e eu disse: ENTREGO SENHOR! E Deus me pediu o segundo ídolo: A DIREÇÃO DO COLÉGIO BATISTA; e eu disse logo: ENTREGO TAMBÉM, SENHOR! e Deus me pediu o terceiro ídolo: O PASTORADO DA IGREJA BATISTA DE PERDIZES; e eu respondi: ENTREGO, SENHOR! Então Deus continuou e me disse: A FAMÍLIA; relutei um pouco, mas disse: ENTREGO, ENTREGO, SENHOR! Ao entregar o último ídolo, veio sobre mim, um poder tal, como nunca experimentara em minha vida. Um gozo profundo no meu coração! Uma paz maravilhosa. Banhei-me com lágrimas a minha mesa de estudo. Fui revestido de poder do Alto. A Bíblia passou a ser um novo livro para mim; orei com liberdade fora do comum. Tive consciência mui sensível de pecado. Senti profundo amor pelos meus irmãos e pelas almas perdidas. Tive muita coisa em minha vida para endireitar, inclusive procurar pessoas para pedir-lhes perdão. Passei a pregar com tanto poder que todos estranharam a mudança em mim operada.7

Após essa experiência marcada pela renúncia, o pastor Enéas Tognini foi levantado por Deus para expandir e consolidar a obra de Renovação Espiritual iniciada pelo pastor José Rego do Nascimento, que deixara a sua linha de frente por questões de saúde. Assim, por quase duas décadas, o pastor Enéas Tognini percorreu os quatro cantos do Brasil anunciando entre batistas, presbiterianos, congregacionais e metodistas uma mensagem bíblica fundamentada no poder do Espírito para trazer novamente vitalidade ao seio da igreja do Senhor.

Essetrabalho do pastor Enéas foi de grande importância para o Movimento de Renovação Espiritual e os seus frutos ainda podem ser observados em nossos dias.

Conclusão.
O cenário evangélico de nossos dias é bem diferente daquele que havia antes de 1960. Não só do ponto de vista do espectro denominacional, mas também no que se refere a representatividade evangélica no cenário brasileiro.

Hoje os evangélicos somam mais de 45 milhões de brasileiros, uma faixa de mais de 20% da população, e estão a ocupar espaços antes inimagináveis a nosso povo, bem comoexercendo papel de influência na condução de temas de grande relevância para a nação.

Esse quadro que temos diante de nós é decorrente, em grande medida, da obra de Renovação Espiritual que veio ao Brasil no século passado; ainda são seus frutos que tanto tem contribuiu para a nossa nação; mesmo que saibamos que muito ainda precisa ser feito.


1 PEREIRA, José Reis. História dos batistas no Brasil (1882-1982). Rio de Janeiro: JUERP, 1982, p. 21.
2 TOGNINI, Enéas & ALMEIDA, Silas Leite. História dos Batistas Nacionais. 3ª ed. Brasília: LERBAN, 2007, p. 52.
3 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação. Belo Horizonte, MG: LERBAN, 1997, p. 27.
4 Ibid., p. 36.
5 Ibid., p. 36, 37.
6 NASCIMENTO, José Rego In: LEWIS, Paul. Renovação na Igreja Brasileira. Americana, SP: Editora Impacto Publicações, 2013, p. 46-48. Apud MURADAS, Atilano. José Rego Nascimento disse: “O Senhor me ungiu para pregar”, 2016. Disponível: <https://getsemani.com.br/portal/?p=4952>. Acesso: ago. 2018.
7 TOGNINI, Enéas. Renovação Espiritual no Brasil: experiências do autor. 2ª edição. São Paulo: Editora Renovação Espiritual, 1984, p. 15, 16.

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PR. HEBERT BORGES
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