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Celebrações Religiosas como "Atividades Essenciais"

porta fechada

Embora tenha muita vontade de fazê-lo, não vou discutir a legitimidade dos projetos de lei aprovados durante a pandemia para que as igrejas permaneçam abertas, imunes aos decretos de governadores e prefeitos para restrição de atividades econômicas e sociais. Já que, por iniciativa de parlamentares evangélicos, eles foram sancionados e estão em vigor, me limitarei a sugerir ações que deem sentido ao adjetivo “essencial”.
Se o culto público é uma atividade essencial, que ele promova...

 



1) A saúde do Corpo de Cristo
A igreja como organismo vivo promove seu crescimento em amor. Cada parte, ajustada e em sinergia, contribui para o crescimento sob o senhorio de Cristo, cabeça do corpo.
Ao censurar a igreja de Corinto quanto a celebração da ceia do Senhor, Paulo disse que um dos motivos de haver entre eles muitos fracos e doentes e não poucos que dormem era comer e beber sem discernir o corpo (1Co 11.29,30). Sim, reunir para o pior era o que acontecia em Corinto (1Co 11.17). Discriminação, desprezo aos mais pobres, indiferença, desamor.
Como ingerir veneno é ignorar a pertença do irmão ao mesmo corpo do qual se faz parte. Negar ao outro nutrição e cuidado, produz adiante o adoecimento de si mesmo. A reunião deve ser para cuidado mútuo. Como no organismo humano cada parte do corpo coopera para o todo, assim devemos nos encontrar para buscar o bem comum.

2) A edificação do templo do Espírito Santo.
A metáfora da igreja como edifício remete ao espaço geográfico para onde as pessoas se dirigem a fim de prestar culto. Mas o ensino do Novo Testamento rompe com a ideia do templo de Salomão, o lugar onde Yahweh ouviria o clamor do seu povo, a casa que levaria o nome de Deus. Jesus profetizou a substituição do templo se os discípulos tivessem fé (Mt 21.21). Agora as pedras são vivas, conforme disse Pedro, a pedra (1Pe 2.5).
Na carta aos Coríntios (1Co 14.26) Paulo recomenda que tudo seja feito para a edificação. Como somos templo do Espírito Santo, individual e coletivamente, espera-se que no ajuntamento dos fiéis se promova a consolidação desse edifício. O ajuntamento deve produzir espiritualidade contagiante, santidade e conhecimento da vontade de Deus. A ação do Espírito na igreja é tanto formativa como diretiva. Ele capacita e envia. Ele fortalece e comissiona. O Espírito dá poder e diz como ele deve ser usado para a glória de Deus.

3) A proclamação do evangelho da paz
Escrevendo aos de Éfeso, Paulo adjetivou o evangelho como quem calça os pés e se apronta para proclamar a paz (Ef 6.15). Talvez pensando em Isaías 52.7, aqueles que percorriam os belos montes anunciando as boas novas, proclamam a paz e dizem a Sião: “o seu Deus reina”.
O ajuntamento público no espaço/templo será de fato essencial se a mensagem anunciada forem boas novas de paz e anuncio da justiça do reinado de Deus. O evangelho da cruz que anuncia a vitória do Cordeiro sobre o pecado. O evangelho do ressurreto, que apresenta resposta definitiva para os que vivem sob a “sombra da morte”. O evangelho da reconciliação entre Deus e a humanidade, e também entre os humanos, sem distinção de gênero, raça, tribo, língua povo e nação. O evangelho da paz com e para todos.

4) A consolação dos que sofrem
O argumento apresentado para que os templos funcionassem apesar da pandemia foi a oferta de consolo e esperança aos que estão em risco de depressão, angústia e sofrimento. Os templos seriam locais de refúgio e o culto momento de catarse e apoio aos aflitos.
Se assim for, serão reuniões em que alguns cantarão louvores e muitos orarão, como ensinou Tiago (5.13). Ou como ensinou Paulo, oportunidade de consolar com a consolação que temos sido consolados (2Co 1.3-5). Parece que pouco sabemos sobre chorar juntos, levar as cargas uns dos outros, lamentar ou compartilhar dores. O triunfalismo ingênuo engana com chavões e frases de autoajuda como se, por si só, declarações e palavras de “fé” fizessem desaparecer as dores do luto, do desemprego, do medo, ou removessem cirurgicamente as aflições da alma.
Se os templos estiverem abertos para acolher quem sofre mostrando um caminho de esperança, cura e fé em Deus, e também promover ações efetivas de socorro e apoio integral, justifica-se. Porém, se for para lançar fardo, culpa, repetir mantra gospel e coletar ofertas para depois despedir vazio o faminto e sem orientação o aflito, melhor mudar a natureza da instituição para “com fins lucrativos” e admitir tratar-se de negócio religioso.

pr jose carlos

 

Pr. José Carlos da Silva
3º Vice-Presidente da CBN (2019-2021)
Primeira Igreja Batista de Brasília